sexta-feira, 19 de março de 2010



GRAMA
Debaixo da cama tem um sapato
Debaixo da grama,
com certeza, terra tem.
E debaixo da coberta, tem alguém.
Quem é este alguém de fato?

Quero descobrir o que há debaixo
dessa tua capa, casca, cobertura de chocolate.

O cão debaixo da sua cama, late.
Ele chama pelo dono,
Você fingi que é surdo.
Ele grita o abandono.
Você lê, em cima da cama
Mudo.

Debaixo da cama
Tem um cão e um sapato.
Em cima da cama tem um Rato.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Emoções que calam

Transbordam pelo gargalo

Pingos de chuva no telhado

Deslizam na tragetória.

Pingos criam memória.

As telhas secam

Seca o chão

O desassosego não.

Sépia, chá, sancas

Vida outra, volta

Desvelando lembranças

Abrindo portas.

Olhar vanguarda,

Sedução , sorriso.

O possível impreciso

De toda uma madrugada.

Encontros são poemas

E ávida, a vida encena

O verso vira película

E toda ilusão, vale à pena.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Com as unhas cravadas na parede lisa
O rosto colado no cimento frio
Escutei do outro lado um gemido
E ao mesmo tempo alguém que ria...

quem será meu deus? que geme assim

E quem é capaz de rir de tanta dor?


Será que é doença? tédio?

Capaz de ser um mal de amor...

Atrás de mim o espelho
Súbito e direto revelou: O gemido saía de minha garganta

E eu mesma, assim como quem canta Ria de minha própria dor.

MIRA


Mirei a maçã sobre sua cabeça
Acertei o coração...mas não a maçã

Desde então não como mais maçãs, nem as colho.
Abandonei o arco. As flechas? Quebrei-as todas.

Somente tua imagem me persegue, sorrindo
Sob a sombra da amendoeira...

E as duas partes da fruta vermelha
Nos antecedem, rolando no chão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008


CORTINA

Marionetes de pano
Brincando de ser ou não ser.
Vivo ou morto por engano,
Sem saber como e porque.

Todos os dias a rotina,
Castrada e obediente,
Separada por uma cortina
Dos desejos mais latentes.

Na cidade grande
A grana que rima com fama,
Rima com gana e invade:
Afunda na lama o coração.

Cuidado com a pressa.
O que não te interessa
Pode ser a chave da tua prisão.
Vê se te escuta, meu irmão!
Porque um dia, esta voz se cala
E você morre em vida.

O enterro é de gala
Mas, as noites são frias.
Você enche a cara
E paga pra ver:
Mas quem vence nas cartas,
Não é mais você.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008


O Reverso

Jurei não mais dedicar-lhe um verso
Nem uma rima, uma estrofe sequer
Magoado o coração de menina
Abalada a existência de mulher

Mas um verso é livre como uma flecha
Vai certeiro; mira aonde quer chegar
E não há força no mundo que impeça
Vem, se lança ainda teima em te alcançar


De minha jura, ocorreu foi o inverso
Disparou-me a poesia em desatino
Debruçou-se meu destino em teu reverso

E agora só existo por escritos
Pela tinta de minh’alma derramados
No crepúsculo de um amor adormecido.

Andréa Barros 19/02/08

terça-feira, 23 de setembro de 2008

LÂMINA


LÂMINA

Quando teus olhos me falam
O que a tua boca teme revelar
Silenciosos sons se espalham
Como facas suspensas no ar.

Nossos corpos levitam entre elas
Num eminente perigo de morte
Como a chama de uma só vela
No apelo do aperto mais forte.

E nem mesmo o medo do corte
Silenciosa lâmina de teu ser
Impede que me atire sem que me importeMorrer em teus braços é tornar a nascer