quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Com as unhas cravadas na parede lisa
O rosto colado no cimento frio
Escutei do outro lado um gemido
E ao mesmo tempo alguém que ria...

quem será meu deus? que geme assim

E quem é capaz de rir de tanta dor?


Será que é doença? tédio?

Capaz de ser um mal de amor...

Atrás de mim o espelho
Súbito e direto revelou: O gemido saía de minha garganta

E eu mesma, assim como quem canta Ria de minha própria dor.

MIRA


Mirei a maçã sobre sua cabeça
Acertei o coração...mas não a maçã

Desde então não como mais maçãs, nem as colho.
Abandonei o arco. As flechas? Quebrei-as todas.

Somente tua imagem me persegue, sorrindo
Sob a sombra da amendoeira...

E as duas partes da fruta vermelha
Nos antecedem, rolando no chão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008


CORTINA

Marionetes de pano
Brincando de ser ou não ser.
Vivo ou morto por engano,
Sem saber como e porque.

Todos os dias a rotina,
Castrada e obediente,
Separada por uma cortina
Dos desejos mais latentes.

Na cidade grande
A grana que rima com fama,
Rima com gana e invade:
Afunda na lama o coração.

Cuidado com a pressa.
O que não te interessa
Pode ser a chave da tua prisão.
Vê se te escuta, meu irmão!
Porque um dia, esta voz se cala
E você morre em vida.

O enterro é de gala
Mas, as noites são frias.
Você enche a cara
E paga pra ver:
Mas quem vence nas cartas,
Não é mais você.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008


O Reverso

Jurei não mais dedicar-lhe um verso
Nem uma rima, uma estrofe sequer
Magoado o coração de menina
Abalada a existência de mulher

Mas um verso é livre como uma flecha
Vai certeiro; mira aonde quer chegar
E não há força no mundo que impeça
Vem, se lança ainda teima em te alcançar


De minha jura, ocorreu foi o inverso
Disparou-me a poesia em desatino
Debruçou-se meu destino em teu reverso

E agora só existo por escritos
Pela tinta de minh’alma derramados
No crepúsculo de um amor adormecido.

Andréa Barros 19/02/08

terça-feira, 23 de setembro de 2008

LÂMINA


LÂMINA

Quando teus olhos me falam
O que a tua boca teme revelar
Silenciosos sons se espalham
Como facas suspensas no ar.

Nossos corpos levitam entre elas
Num eminente perigo de morte
Como a chama de uma só vela
No apelo do aperto mais forte.

E nem mesmo o medo do corte
Silenciosa lâmina de teu ser
Impede que me atire sem que me importeMorrer em teus braços é tornar a nascer

domingo, 21 de setembro de 2008

Vestes


Já me despi tantas vezes...
Despi os seres, Matizes
Despi afazeres & arranquei raízes.

Vesti disfarces de meretrizes

E quando o ódio me bate
eu transformo
o sapo em prismas
reluzindo cristais
*
Agora não mais.

Me despi porque as vestes que me obrigaram Não eram minhas. Nem tuas.
Então preferi andar nua.
E o passo ficou mais firme A cara mais dura.

Metamorfisiologicamente
O corpo é sincero e a alma mente. Imoralidade empírica do não saber.
Ninguém sabe o que querer
Fomos vedados ao nascer.
Não me permitiram voltar pra mim
Por isso quando me penetram gozo de saber

Que dentro estou viva ainda.
E no âmago de minhas entranhas, estranhas, me sinto linda.

sábado, 20 de setembro de 2008

O livro dos vivos


A palavra escrita, desenhada da forma que aprendemos na infância
Nos transporta e nos confunde, nos acalma e nos assusta
Não somos nada sem ela. Com ela não sabemos o que somos.
É o sumo do que sentimos na sede do que calamos.
Foto do suspiro suspenso na alma
Retrato do instante em que revelamos
Na tinta, no lápis, na tela, na palma.

Pinturas rupestres nas cavernas
Escritos egípcios, marcas nas pedras
Desenhos no embaço das janelas
Estamos sempre marcando
A nossa doída existência
Aos decendentes ofertando.

Mesmo que eu escreva
Em todas as peles do mundo
Em todos os muros, espaços
No chão, nas paredes dos quartos
Sempre será incompleto
Jamais saberemos de fato
A que viemos ao certo.
Temos como consolo, então
Este sentimento absurdo
O amor- desejo- paixão
Que torna o instante mudo.

Uma só palavra que eu tenha marcado
Na superfície da tua pele macia
É minha glória e meu legado
Livro da vida que principia.

Quero ser no teu corpo mais que tatuagem
Quero ser a miragem de uma letra escrita
Em um livro que não se vira a página.
Deitada num sonho que nunca termina.

Deixai... ó dono da pele
Que eu escreva em todo seu ser
E prá sempre te revele
Segredos de amor e prazer.

Seguirei escrevendo frases
Na pele de tantas criaturas
Nas almas, nas vidas, na areia
Se apaga com mar e com chuva

Fica a imagem na lembrança...
O aroma no sentido...
O Livro das esperanças
E o dos afetos doloridos.


Andrea Barros.
16/07/2007